domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Silêncio em duas faces


Deixar sua casa e partir para uma terra distante não foi uma tarefa fácil. Ficar e estabelecer os comandos cerebrais para a adaptação foi até mais fácil devido aos objetivos imputados por ele mesmo que teriam que ser atingidos.

Voltar de Angola também não foi simples. Mesmo que as raízes estejam distantes, a cada passo é como se algo seu ficasse na terra e também alguma coisa da terra penetra no seu íntimo através do contato com os pés.

Sentindo a grandeza dos desafios profissional e de vida que estava envolvido, decidiu compartilhar tudo com os amigos através da elaboração de crônicas do seu cotidiano. Estas, a medida que retratavam alguma experiência que merecesse alguma evidência, foram encaminhadas por e-mail.

Percorrendo quase todo o país os relatos dos fatos foram se avolumando e as crônicas se transformaram em um “blog” e depois em dois. Os acessos começaram e as consultas por e-mail tiveram uma boa repercussão em sua caixa. Sempre gostou de responder as impressões e aos comentários que eventualmente chegavam.

Após três anos um fato inusitado aconteceu: No retorno de uma viagem ao Brasil e Portugal para ver a família e fazer o desestress, ao chegar a Luanda percebeu uma mancha no canto inferior do olho esquerdo. Esta só fez crescer com o passar dos dias e o diagnóstico final da médica angolana foi “Descolamento de retina! Engenheiro Fernando, tens que deixar o país o mais rápido possível sob pena de perderes o olho”.

Tudo então foi providenciado para o retorno e para as cirurgias que se seguiriam no olho cego. Na via crucis das cirurgias percebeu durante a sua convalescença que já não poderia voltar a Luanda. Sua família não aguentaria mais aquela separação. Isto foi plenamente retratado nas reações de Matheus no colégio, através das notas e nas turbulentas relações com os colegas.

Quando o Dr. Teófilo, seu médico oftalmologista, deu carta branca para o retorno ao trabalho, o jeito foi escrever a seguinte carta:

Caro Sr. Waldeck Venho por meio desta informar a esta empresa, que por motivos de ordem particular requeiro o afastamento, em caráter total, do quadro de engenheiros da mesma. É uma decisão que tomo com bastante pesar, já que esta empresa é na realidade a minha família angolana e meu Porto seguro neste País. Além dos laços profissionais, os laços fraternos é que me vêm à mente quando penso em todos os passos dados por mim nesta Terra africana, na companhia e com a ajuda destes tão caros amigos que fazem esta família! Há tempo para chegar, há tempo para trabalhar e também houve tempo para que este irmão de vocês se engrandecesse e evoluísse.

Evoluir nas dificuldades, nos erros, nos acertos, na adaptação a uma terra distante, quando se percebe seus meandros e se tem a clarividência do quanto é prudente chegar e aonde é prudente não ir, pois já dizia o Poeta "Em terra alheia, pisa devagar..."

Evoluir na súbita perda dos nossos amigos queridos, que como nós tínhamos o desejo de enfrentar o desconhecido, buscando forças que nem nós mesmos sabíamos que as tínhamos.

Mas também chega o tempo para partir e este se manifesta quando olhamos para os nossos e sentimos que o peso que fica com eles já está chegando perto da nossa carga que carregamos quando saímos da nossa casa para mais uma temporada longe dos entes queridos. Então é com imenso pesar que solicito este desligamento, lembrando de todos os meus amigos companheiros, angolanos e brasileiros, desde os que fazem a diretoria até os nossos queridos amigos vigilantes e zeladores. Esta nossa convivência não tem preço.A todos os meus mais sinceros votos de apreço, na certeza de que nada é definitivo e que em breve vamos estar juntos novamente.

Um abraço
Fernando Antônio Ferraz de Melo

Ao enviar esta carta, sentiu uma enorme perda e que a guinada em sua vida continuava. Era hora de buscar novos rumos nas empresas nacionais de engenharia.

Um belo dia, já estabelecido em Recife, recebeu com bastante surpresa e emoção o seguinte e-mail:

Prezado Fernando

Há 4 meses o meu esposo está trabalhando em Angola, precisamente em Menongue, pela Andrade Gutierrez.
E como ele é muito calado, sei muito pouco de lá.
Ao verificar o mapa, vi a distância que Menongue fica da capital, e sempre tive muita preocupação e curiosidade em saber detalhes da vida lá.

E você não faz idéia de como me sentia, imaginando como é a vida neste país. Aqui na minha região só ouvi falar da dificuldade da vida, das condições de higiene entre outras coisas mais.
Inclusive na semana passada, passei por momentos difíceis, pois o meu esposo esteve doente e ficou internado na capital. Sem ninguém conhecido por perto,
para dar uma força á ele.
E você sabe como é mulher, a gente pensa com o coração e não com a cabeça, acho até que sofri mais que ele...

Mas sempre Deus coloca “anjos bons” em nosso caminho, e neste final de semana tive oportunidade de ler “Crônicas de Luanda – Angola – Parte II”.
Pude então saber mais e o mais importante - ver fotos de lá.

Gostaria de parabenizá-lo por este seu trabalho e dizer o quanto ele foi importante para mim. Foi uma luz para mim e para a minha filha.
Hoje podemos dizer que sabemos mais sobre a Angola.

Somos gratas por isto.
Muito obrigada...
Vera Oliveira

Ao lê-la não soube o que pensar, terminou por considerá-la um troféu e mostrou a Yara, sua esposa, que também se emocionou. Era um coroamento digno de todo o trabalho que tivera, escrevendo às vezes para si, pois julgava que os amigos no Brasil já não tinham paciência para os relatos que publicava em seu blog. Escrevia, pois sabia que seria um belo registro da experiência que foi um divisor de águas em sua vida. No entanto, ei-la gerando frutos e ajudando pessoas. Preparou-se para mandar uma resposta à altura, mas o que conseguiu enviar não o satisfez:

Vera,

Foi com muita emoção que li o seu e-mail. Depoimentos como o seu é que me fazem continuar a escrever e a divulgar o que acontece neste continente tão renegado ao descaso pelo resto do mundo.

Que Deus abençoe a você e sua família e que Lhe dê forças para vencer esta provação, pois tudo que estais passando a minha família passou e muitas também estão a passar. Que todos busquemos coragem com Ele. Continue com esta persistência e dê sua força para seu marido, pois o silêncio que o acompanha, e que é tão prejudicial para você e sua filha, não quer dizer fortaleza e sim temor. Temor que a verdade possa fortalecer seus argumentos e que estes o convençam a abandonar o desafio que ele abraçou juntamente com vocês. Ele está precisando de seu alento, com certeza.

Um abraço
Fernando


Sophia estava se preparando para seguir ao aeroporto. Esta preparação era tanto externa quanto internamente. Durante o ritual feminino, a se iniciar com um banho e finalizar com os últimos retoques na maquiagem, sua mente não parou. Não cansava de buscar alternativas de argumentos que poderiam ser usados para tentar remediar a situação que se encontrava com José Carlos. Sua decisão de não passar as festividades natalinas no Rio de Janeiro, como ele queria, com certeza abalara a relação de ambos. Perguntava-se, às vezes, por que raios não havia pegado o avião junto com ele.

Logo os argumentos utilizados vinham à sua mente: Passar o Natal com a mãe e o filho, medo de voar, condições do inverno no sul e sudeste, condições econômicas... Mas o motivo maior, que estava lá no fundo de sua mente, era que queria um tempo livre para ela.

Estava atordoada com as mudanças profissionais que haviam acontecido naquele ano, período que assumiu novas e estressantes responsabilidades dentro da empresa. Uma parada solitária, com poucos problemas e emoções era tudo o que necessitava para colocar a cabeça em ordem. Aquele afastamento de José Carlos, quando visitaria seus filhos no Rio de Janeiro, não era esperado, mas facilitaria ainda mais os seus objetivos. Não programou nada durante os 20 dias de folga, tanto é que dispensou a arrumadeira e assumiu os serviços da casa. O melhor do dia era a hora que ia à praia, andava e contemplava o mar. Olhando para aquela serenidade misturada com a força que só o mar tem, parecia que seus problemas estavam todos resolvidos. Até este que fora criado por ela e que enfrentaria agora.

José Carlos não cedera a seus argumentos e viajara carrancudo. Fora extremamente formal e arrediu nas suas manifestações de final de ano ao telefone. Mesmo ontem, ao informar o horário da chegada, fora frio e breve. Agora ela estava esperando uma possível discussão no caminho de retorno do Aeroporto e com ótimas probabilidades de continuidade quando chegassem à casa. Isto a estava deprimindo bem mais, pois este clima poderia durar dias, dependendo do estado de ânimo de José Carlos.

Pegou as chaves do carro e desceu. Já estava um pouco atrasada e só faltaria este motivo para complicar ainda mais esta situação, um atraso...

Parada em um sinal de trânsito, o rádio ligado, que não cumpria o seu papel de relaxamento, o ar no segundo ponto e os vidros fechados, não deu importância ao senhor que chegava com uma sacola e um maço de papéis na mão. Na sacola estava escrito a entidade beneficente ligada a um grupo espírita.

O senhor fez-lhe um sinal. Ela não estava com paciência, nem motivação para ouvir a ladainha e tirar dinheiro da bolsa. Disse-lhe, através de mímica, que não possuía trocados. O senhor não desistiu e retrucou, também através de mímica, que ele queria dar e não receber.

Sophia então achou que ninguém merecia uma indelicadeza, principalmente uma pessoa que estava ofertando algo. Desceu o vidro, recebeu o papel que conta mensagem qualquer. Desculpou-se com o senhor pela ausência de dinheiro. Ele agradeceu a ela ter recebido sua oferta e foi em frente em seu trabalho não reconhecido.

Aquela demonstração de abnegação e, por que não dizer carinho, a fez esquecer, por alguns momentos, o seu problema. Colocou o papel no painel do carro, prometendo a si mesma que o mínimo que poderia fazer por aquele homem era ler a mensagem.

Estacionou o carro no Aeroporto e foi ao saguão pegar informações sobre o vôo. Felizmente chegara quando o avião acabara de aterrissar.

A ansiedade começou na espera em frente ao portão de desembarque. Queria superar aquele sentimento e tentou se distrair olhando as esculturas de Brennand, mas a rusticidade do mestre não a prendeu por muito tempo e a ansiedade continuou...

José Carlos finalmente deixou o saguão de recepção de bagagens. Ela deu um sorriso para recebê-lo, foi retribuída com um beijo, e só...! Tentou iniciar uma conversa sobre o vôo, mas as respostas foram monossilábicas. Nova tentativa a respeito da saúde dos filhos no Rio, novos monossílabos. Desistiu!

Foram para o estacionamento em silêncio. Ela desligou o alarme e abriu compartimento de bagagem. Enquanto ele carregava as malas ela foi pagar o estacionamento.

Encontrou-o já dentro do carro, no banco do carona. Ao entrar e ligar o veículo ele perguntou: ”Quem te deu isto?” Ela olhou para ele, que estava com a mensagem que recebera a pouco na rua. “Foi um senhor, agora mesmo, na rua. Acho que era de algum grupo espírita.”

Não houve mais perguntas e nem mais diálogos. Em sua mente, Sophia só esperava a hora em que seria questionada por sua ausência nas festas de fim-de-ano. Mas a viagem transcorreu em silêncio. Ao chegar em casa, almoçaram a frente da televisão e José Carlos, por si só, começou a relatar as novidades do Rio de Janeiro. Falou alguns detalhes dos filhos, passeios que havia realizado com eles, conversas que haviam tido, etc.

Ela então contou sobre seu período de descanso e sobre sua experiência doméstica, que provocou alguns risos. A vida então voltou ao normal e a convivência foi sendo restabelecida. No início da noite, Sophia pegou o carro para ir ao supermercado. Ao ligar o veículo, viu a mensagem esquecida no painel e o momento da pergunta de José Carlos veio à mente. Logo entendeu que alguma coisa ele lera ali que acendeu o seu interesse. Pegou o papel, dando-lhe uma importância que não havia dado antes. Havia um texto longo, mas a mensagem que se destacava em um texto impresso em letras maiúsculas era: “Em certas ocasiões é melhor deixar o silêncio falar

Frei Ludugero contra a mulé que não queria ir pro Céu

Vivia em certa cidade
Faceira des que amanhecia
Aruam, a mulé vaidade
Trabalhando noite e dia
De folga era só felicidade
E na firma ela arrepia

Entrava no cabelerero
Feiúra era o que mais temia
Passava longe do Mostero
Com reza nada queria
Bebê era desejo martrero
Que mais a ela servia

Fumar era seu esporte
O pagode sua religião
Dançar era o seu mote
Xumbregar a fascinação
Pros amigos era a sorte
Pro marido preocupação

Longe da balada
Na responsabilidade
A cabeça atarantada
Pensava prosmiscuidade
A Mulé abestaiada
Falava caduquidade

Quando a morte me levá
Pro Céu quero ir não
Meus amigos num vão lá
Lá num tem nenhum tesão
Bebê, fumá, trepá
Posso lá fazê não

Que graça tem um lugá
Que só anjinho se vê
Eles vão pra lá e pra cá
Com harpinha de doer
Um samba que é bom levá
No Céu nunca vou tê

Tubinha moleque crente
Na faxina trabaiou
Ouvindo a indecente
De horror logo ficou
Pro mostero de repente
Correu e pro frei falou

Frei Ludugero de Saldanha
Grande home de oração
Ao ouvir aquela manha
Com Tubinha na falação
A aflição foi tamanha
Que prostou-se de aversão

O frei era destemido
Logo se recuperou
Pegou na Bíblia sofrido
Do crucifixo se apoderou
Por Tubinha foi conduzido
A alma que pecaminou

Chegando ao local indicado
Ludugero logo parou
É aqui que mortificado
Com a coisa ruim se abalou
Aruam ainda dava recado
Que o frei num gostou

Apontada por Tubinha
A faceira deu um jeito
De falar a ladainha
Pro frei sem arrespeito
Pois do Céu ainda tinha
O mesmo triste conceito

O frei logo elevou
A cruz do seu peito
Pra faceira ele apontou
A catequese e o preceito
Por horas ele falou
Mas a alma não tinha jeito

Quanto mais o frei falasse
A danada mais sorria
E do frei só caçoasse
Céu e inferno fugiria
Quando a morte apontasse
Purpurina ela seria

Diante daquela artimanha
O frei num teve jeito
Exorcismo era a façanha
Pra mulé ficar direito
E acabar com a sanha
De tratar Céu com desrespeito


Frei ludugero rezou
Pros santos ajudá
A expulsão começou
Era diabo a se peidá
328 o povo contou
Desse bicho a voá

Depois da limpeza diabólica
Aruam tava retumbante
Parecia em coma alcoólica
Com o fato alucinante
De tirar toda a cólica
Dos demos esfuziantes

O frei vendo ela
Naquela situação
Pegou a mão dela
Vendo logo a feição
Duma vibração nela
Veio inteiro o cramulhão

Um coisa-ruim tinha sobrado
Na mulé da vaidade
E no frei todo assombrado
Uma rasteira de verdade
Acudiu o coitado
A mulé com liberdade

Vem cá sua danada
O Céu é que num te quer
E depois desta encochada
Na gandaia como qualquer
Vou viver minha jornada
Como home que te quer.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um atributo de requinte

O termo “farofeiro”tem os seguintes significados no dicionário Michaelis:
“Adj. e s. m. Pop. 1. Fanfarrão. 2. Diz-se do, ou o indivíduo que mora distante da praia e a freqüenta levando o seu farnel.”
Como muitas palavras na língua portuguesa, esta teve seu sentido transformado para outros significados, e basicamente, o que está me interessando, advêm deste último sentido mostrado pelo Michaelis, que contempla um tal indivíduo que desce na praia de sacola cheia e, juntamente com os amigos e familiares, transformam o passeio em uma mistura de folia, comida, suor, bebida (cachaça, de preferência...) e areia.
Embora este personagem dê pano-para-mangas a um texto de boa análise comportamental, mesmo porque nós já fomos, em alguma época, ou de alguma forma, e sobre certos aspectos, enquadrados neste conceito, com certeza, é a matriz, mas não o significado que eu queria ilustrar.
A evolução a que eu tento descrever, se a confusão mental deixar, é a aplicação deste termo aos viajantes. Sim, aqueles viajador que têm uma compulsão por levar tudo que encontram na viagem para dentro de casa. Há de se resguardar os artesanatos e coisas afins como roupas, utensílios etc. Farofeiro que se presa enche o carro é de comida e neste quesito eu me enquadro, diria que, discretamente. Um farofeiro de renome, não pode deixar passar um doce da terra, uma fruta de época, mel–de–abelha puro, um tempero exótico e, principalmente uma boa pechincha.
Para chegar a este meu estágio (de aprendiz, vale ressaltar...) tive dois mestres, em que me respaldar, nesta tão nobre arte. São dois experts que têm estilos diferenciados, como veremos adiante.
O primeiro, e grande companheiro de profissão, chama-se Carlos Alberto Sena de Lira, popularmente conhecido como “Carlos Sena”, ou simplesmente “Sena”. Todos da Maia Melo Engenharia percebem a sua chegada quando este chega no portão da empresa, devido ao volume da voz e a grande quantidade de palavras que ele consegue dizer por minuto. É figura das mais queridas no meio da Engenharia Rodoviária e um ótimo papo. Convivo com ele desde 1986, quando fui designado para o belíssimo Estado do Rio Grande do Norte, onde a Maia Melo Engenharia liderava um Consórcio que incluíam mais duas empresas, seguindo um programa de implantação de rodovias no Estado. Estávamos em trechos diferentes, mas sempre nos encontrávamos em Natal, nas reuniões quinzenais. Naquela época já se comentava a peculiar característica de Carlos Sena em carregar suas sacolas, todo o final de semana, em direção ao Recife. Dentro delas havia de tudo – Queijo manteiga de Caicó, Doce de batata-doce, Carne de Tatu-Peba, etc.. Joel Ventura, Engenheiro da Empresa, foi o primeiro que alcunhou nosso amigo. Todas as sexta-feiras os engenheiros do Consórcio se encontravam no DER de Natal para a reunião de esporro semanal com Marco Vinícius, Coordenador Geral das empresas consultoras. Após a fatídica reunião, seguiam para a Rodoviária a fim de pegar o ônibus para o Recife. Carlos Sena sempre aumentava, e muito, a quantidade de decibéis na Estação de ônibus, contando a todos os fatos ocorridos no trecho. Numa certa sexta-feira, nosso amigo estava particularmente carregado e, de quebra, falando muito. Quando o ônibus chegou, ele foi o primeiro a subir. Joel esperou apenas a chegada ao último degrau para lascar um “farofeeeeiro !!!!”. Foi quando, no susto, ele segurou a gaiola com o canário, que havia comprado em Currais Novos, e deixou cair um saco de laranjas, que levava para a sua mãe. Enquanto os passageiros subiam para o ônibus, as laranjas faziam o circuito inverso quase derrubando a engenheira Denise por cima de sua amiga Verônica. Sena não voltou para catar suas laranjas, mas também não deu muita bola para o festival de galhofas que se seguiu, eternizando assim seu nome na galeria dourada dos compradores profissionais de acepipes.
Convivi com Carlos Sena diariamente, durante os anos de 1988 e 1989. Estávamos em Codó, no Maranhão, trabalhando na restauração da BR-316. Como todo o Estado brasileiro, seu povo tem alguns usos e costumes alimentícios que deliciam os forasteiros, como o arroz de Cuchá, e alguns que causam, digamos... estranheza! Nesta categoria, causava um grande descompasso estomacal, em nós pernambucanos, a farinha de puba. Utilizada pelos maranhenses, no seu dia-a-dia, a dita cuja era produzida numa granulometria que não tinha nenhuma aceitação nos pratos pernambucanos. Isto quer dizer que ela não passava na peneira 40 (para os leigos, significa que seus grãos eram tão grandes que podiam quebrar o maxilar na primeira mordida). A tal, não se enquadrava na famosa paixão dos nordestinos pela farinha, que é imprescindível em pratos como arrumadinho, paçoca, pirão de cosido, etc. Não se podia pensar em utilizar a farinha de puba nestes pratos. E era estranho misturá-la com feijão. O prato dobrava de tamanho.
Carlos Sena então, despachava em sua bagagem de avião, para Codó, um saco de farinha pernambucana, em sua viagem mensal ao Recife. Era engraçado vê-lo abrir seus malotes de viagem e tirar um quilo ou dois de farinha de mandioca de dentro deles. Iniciava então, um ritual de marketing do produto, onde mostrava sua consistência e finura a todos os maranhenses, começando pela cozinheira e finalizando pelo motorista Serra, que comia uma estranha derivação da farinha de puba, a misturada com coco, argh!
Desfrutei, no Maranhão, de outros acepipes da cozinha pernambucana em decorrência desse tão peculiar hábito de meu amigo, que, de certa feita, levando (de avião) um quarto de bode comprado no mercado de Areias, no Recife, ensinou a todos, maranhenses e pernambucanos, a melhor maneira de desfrutá-lo. “É guisado e acompanhado de cuscuz”, Amém!!!
O outro grande mestre nesta nobre arte é Armando ..., responsável técnico pela Tecsond, firma de prospecção geotécnica. Grande companheiro de viagens, Armando é uma das pessoas mais afáveis que conheço. Daí vem uma importante característica de todo farofeiro que se preza. Ele lembra de todo o mundo que ficou, e não descansa enquanto não leva alguma coisa para a mãe, que gosta de um queijo qualho, a irmã que gosta de um doce-de-leite, ... Até encher as malas, a sua e a do carro. Armando é um tipo de técnico que não consegue dizer “não”. Sempre que a JBR Engenharia, empresa na qual dou a minha modesta contribuição, precisa de um levantamento geotécnico, ou de um técnico que entenda das coisas para uma viagem de reconhecimento de um trecho, Armando é o contatado. Às vezes tenho a plena consciência que ele não poderia me acompanhar, mas ele modifica toda a sua programação para nos atender. Nessas viagens percebia seus hábitos farofistas (feira de doce, mel, queijo, etc.,etc) e puxava pelo assunto. As histórias foram aparecendo e entendi que além da qualidade Senniana de “comprar para a família”, Armando ainda tem uma outra que cria uma escola diferenciada na arte “farofista”, a do oportunismo.
Só para ter uma idéia do que significa esta palavra nas ações do nosso amigo, certa vez ele viajava com Luís, seu rastreador de jazidas, em direção a Milagres na Bahia. Quando haviam passado, aproximadamente, 100 quilômetros de Aracaju, perceberam uma batida entre dois caminhões. Um estava carregado de batatas e o outro vinha com sacos de cimento. As cargas estavam espalhadas e misturadas pela pista e no aterro. Havia, no local, uma movimentação de carros e pedestres, que estavam garantindo, cada um, o seu quinhão do carregamento espalhado. Armando, parou e encheu a caçamba de batatas sujas de cimento. Voltou, então para Aracaju com a intenção de vender o seu carregamento na CEASA. Pensava em pedir, pelo menos, R$ 250,00 na carga, não encontrou quem desse este valor devido a sujeira da mercadoria. Voltou à viagem com um terço do que pretendia, mas saiu no lucro.
As oportunidades, às vezes, perseguem a quem delas trata bem. Estava Armando, com sua equipe, em Vargem Grande, Maranhão, fazendo o levantamento geotécnico de uma Jazida que ele denominou de “Mangueira”, devido a uma espécime ali existente. A tal estava empenando de tão carregada. É claro que o nosso companheiro e sua equipe, não se fizeram de rogados. Encheram a Camioneta de manga-espada e mais ainda alguns sacos que eles tinham. Quando chegaram na cidade saíram distribuindo a todos que olhavam para o veículo, mesmo assim, houve manga para mais de uma semana na república, até que o último quinto apodreceu, com todos os sete moradores enjoados da deliciosa fruta.
De outra feita, eles estavam trabalhando em outra jazida próxima a Mossoró no Rio Grande do Norte, e nesta existia um plantio de Gerimum. Armando, humildemente pediu a dona do terreno unzinho para levar para a república. Pelo jeito a dona agradou-se de alguém na equipe, pois saíram com a caçamba cheia novamente. O resultado é que passaram na feira e venderam mais da metade da carga, pois não havia quem comesse toda aquela quantidade.
Em Sairé, Pernambuco, eles estavam fazendo uma sondagem no subleito da rodovia PE-423 para o projeto final de pavimentação. Em certo trecho, o dono do terreno onde a estrada iria passar, ficou extremamente feliz com a notícia de que “o asfalto” iria passar em suas terras. Armando então, aproveitou da situação e pediu ao homem um “milhinho” para o S. João. O dono então encheu a camionete D20 com sacos de milho e feijão de corda colhidos na hora. Ao chegar em casa com aquela espantosa carga a esposa lhe perguntou se ele iria mudar de ramo e abrir uma mercearia.
Além do oportunismo, meu companheiro tem como grande particularidade a negociação. Não sei se ele sempre se dá bem, mas eu notei que o importante para ele é sentir o cheiro de uma boa barganha.
Estava em Esplanada, na Bahia, quando viu, na beira da estrada, uma mulher com um viveiro de passarinhos. Lembrou que sua mãe desejava, há muito, um galo-de-campina. Parou e notou um da espécie que lhe interessava, perguntou quanto custava e a vendedora deu um preço. Quando ele começou com a velha conversa-mole para derrubar o preço, a ambulante perguntou: “Porque o senhor não leva todos? Vamos negociar, eu faço um preço bom”. Não deu outra, o viveiro foi amarrado na caçamba da camionete e para quem queria um galo-de-campina, sair com uma patativa, dois bigodes, dois sabiás, um bico-de-laica, dois guriatãs, dois papa-capins e muito mais, não foi um mal negócio, pois o preço ajustado resultara numa pechincha. Não seria se..., não sei se pela viagem, não sei se eles já estavam doentes, o fato é que os passarinhos passaram a morrer sistematicamente ao chegar em Recife e tudo o que lhe restou foi um único pintassilgo.
Em outra ocasião, estavam seguindo viagem para Tabuleiro do Norte, no Ceará, quando Armando vê uma barraca de frutas, nas imediações de Sapé, na Paraíba, e nela uns abacaxis bem maduros, prontos para o deleite. Parou a camionete e pensou em comprar quatro abacaxis apenas. Ao ver aquele carro grande, os vendedores vizinhos correram para oferecer sua mercadoria ao dono. O saldo da brincadeira foi 120 abacaxis na caçamba da D20. Chegando em Tabuleiro, a meninada saiu correndo atrás do veículo, na maior algazarra. Meu amigo, que tem bom coração, resolveu doar uma parte daquela suculenta carga para a criançada e...ficou apenas com 10 abacaxis.
Entretanto, a maior evidência de sua disposição para a comercialização aconteceu aqui mesmo na JBR. Houve uma época de grandes reformas, coisa que acontece com a maioria das empresas de engenharia consultiva, na busca da melhoria do layout de funcionamento. Em dado momento decidiu-se pela troca da cobertura da empresa, no que resultou numa imensidão de telhas armazenadas no jardim, esperando um destino mais glorioso. Armando passou, viu aquilo tudo e correu para a sala de Rogério Oliveira, Diretor de Planejamento. Pensava na casa da mãe, que vivia reclamando dos furos do telhado e pretendia comprar umas 500 telhas. Rogério, percebendo o interesse do colaborador e com a necessidade tremenda de se livrar daquele trambolho que ocupava a frente da empresa, proferiu as palavras mágicas: --“Armando, porque você não leva tudo, vamos negociar?” A história prossegue com um final de semana de intenso trabalho, pois estimou-se, em pelo menos, 5.000 telhas. Foram necessárias três cargas de caminhões, uma equipe de 5 pessoas e uma disposição para jogar o final de semana no lixo, pois associado a proposta tentadora, veio um ultimato em relação a permanência das telhas no jardim. –“Segunda-feira não pode ter nenhuma aqui!!!” Além das 5.000 telhas a operação rendeu uma bruta dor na coluna e um problema. Após trocar as telhas da casa da mãe, da garagem, do puxado da irmã, da casa do cachorro e de ter emprestado 450 ao vizinho (eu nunca vi disso...!!) sobrou ainda umas 2.500 unidades que estão ocupando um terço do quintal sem a mínima possibilidade de utilização nestes próximos dois anos.
O episódio mais recente trata do antigo portal de entrada da JBR que, por motivo de troca por uma estrutura em vidro mais moderna, está estocado no jardim. Armando já me disse que o adquiriu, no entanto o artefato ainda está enfeitando a entrada da empresa. Estamos esperando para breve o segundo ultimato.
Tive o privilégio de ver a ação dos dois expoentes, simultaneamente. Fizemos um levantamento em parceria com a Maia Melo Engenharia e eu e Carlos Sena fomos encarregados dos levantamentos de campo. Levei meu fiel escudeiro Armando e ficamos nos comunicando com Carlos Sena. No final, nos encontramos em Serra Talhada no mesmo hotel. Combinamos tomar uma cervejinha e fomos no carro de Sena. Ao entrar, senti que ele havia passado por Cabrobó, tal o cheiro de cebola que estava no veículo. Perguntei o que era aquilo. Ele me respondeu que tinha um saco de cebola na mala. –“Só isto Sena?” Perguntei e ele já percebendo o meu ar de galhofa respondeu. –“Tem também duas melancias, metade de um bode e duas garrafas de mel.” Fizemos uma das melhores farras dos últimos tempos e no dia seguinte, como estávamos longe de casa, ainda paramos em Custódia para comprar doce, em São Caetano para comprar carne-de-sol, em Encruzilhada para comprar queijo, em...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Conversas e Repentes

Férias na profissão de Engenheiro é uma situação delicada. Havendo muito trabalho, não há como tirar férias. Se as férias são impostas numa época de escassez de serviços, serão férias indesejadas, pois no retorno pode haver um bilhete azul nos esperando. Bom mesmo são as programadas pelas duas partes, em épocas normais de trabalho. Nestas reservo boa parte para desfruta-las no paraíso da Praia de Serrambi, litoral sul de Pernambuco, logo após as famosas praias de Porto de Galinhas e Maracaípe. As águas claras do mar fazem com que se veja o dedão do pé quando se está com água na cintura. Existe mar para todos os gostos: Forte para surfar, piscinas onde se pode ir com a garotada miúda sem nenhuma preocupação, mar calmo para relaxar. Aquela vista tornava fácil os 8 km diários de caminhada (4 para ir, 4 para voltar) com o intuito de aproveitar também a praia e o agito surfista de Maracaípe. É gostoso atravessar a desembocadura do rio Maracaípe que separa as duas praias, onde se pode aproveitar a correnteza batendo nas costas, se constituindo em mais uma verdadeira massagem relaxante. Tudo isso era um deleite para o corpo e para a vista.
Para a mente também havia seus deleites. Estava hospedado na casa de Izaldo de Melo Vasconcelos, um homem de uma doçura sem limite, do qual eu me orgulho de ser seu afilhado. Quando chegava de Maracaípe, já sabia que o encontraria na mesinha do terraço, propenso a dilapidar a sua coleção de cachaça. Ele não tomava nenhuma sem que eu chegasse para fazer-lhe companhia.
Tio Izaldo tem um conhecimento geral imenso e uma memória de fazer inveja a qualquer um. Principalmente quando se trata de poesias, e de sua especialidade, os repentistas.
-Entrou Antônio Marinho em um armazém na rua Duque de Caxias, no tempo que esta ainda tinha armazéns. Ficou olhando as mercadorias expostas, quando o balconista, que analisava o jeito meio simplório do cliente, perguntou:
– Deseja alguma coisa?
– Nada, respondeu Marinho.
– Nada não tem, tá faltando, gozou o balconista, no que foi correspondido por uma risadagem geral.
Marinho, com jeito de matuto, agüentou e ficou olhando o estabelecimento.
– O que tem naquelas panelas? Acabou perguntando, apontando para algumas panelas que estavam nas prateleiras no alto da loja.
– Nada, respondeu o mesmo balconista.
– Oi! Você acabou de dizer que nada não tinha! Respondeu Antônio na hora! “
Mudando o herói de sua narrativa, meu padrinho recomeçou: “Rogaciano Leite era um jornalista nascido em Caruaru. Na década de 50 abocanhou o prêmio Esso de reportagem com a matéria ‘Amazônia, o Inferno Verde’, para a revista ‘O Cruzeiro’. Ele era um dos exímios repentistas de Pernambuco e viajava pelo interior, na cola de algum tema para seus escritos, quando chegou na casa de um cidadão de nome Januário Pinto que fazendo 104 anos. Alguém na festa, sabendo de sua fama, solicitou a Rogaciano fazer uma homenagem ao dono da casa naquele dia tão especial. Não se fazendo de rogado, o jornalista começou:
‘Vejo aqui no recinto,
Idoso como ninguém.
O pai de Matusalém,
O velho Januário Pinto!
Vem do dilúvio não minto,
A verdade eu não alterno,
Viu Roma, viu Padre eterno,
Viu Sodoma, viu Gomorra,
Seu Januário, ora Porra!
Vá ser velho assim no Inferno!’”
E na mesma embalada, tio Izaldo continuou com Rogaciano Leite, mas levando uma revés de um companheiro em sua terra natal.
“Lourival Batista, o velho Louro do Pajeú (um dos maiores repentista nordestino, nascido em S. José do Egito) foi a uma temporada em Caruaru, onde ganhou muito dinheiro. Ao término dos eventos, seu parceiro foi embora e ele ficou lá, bebendo, jogando, gastando tudo o que havia ganho. Precisando voltar para casa, foi obrigado a vender um anel, que possuía, com a imagem do Cristo Redentor.
Após algumas semanas, Rogaciano chegou a Caruaru e procurou seus companheiros para realizar uma peleja de repentes. Muito senhor de suas possibilidades e deixando a humildade presa na casinha dos cachorros, terminou uma sextilha com o seguinte enredo:
‘Você agora fique certo,
Que Caruaru é só meu.’
O companheiro, sentindo a arrogância, em cima da bucha deu o troco:
‘Vai se dar com você o que se deu,
Com o nosso companheiro Lourival,
Ganhou muito dinheiro e perdeu.
Estragou em mulher, jogou, bebeu
E ficou com demora e mais demora
Mas depois precisando dar o fora
E possuindo um anel com o Cristo Redentor,
Procedeu como Judas Traidor.
Passou o Cristo no cobre e foi embora.

Tio Izaldo ensina que um repente não precisa ser rimado, pode ser uma armadilha verbal, como a de Antônio Marinho (no começo desse texto), ou uma resposta cínica a certas perguntas, como a de Zé Doido de Patos na Paraíba, que tendo pedido um pedaço de pão, perguntaram-lhe se iria comer ali fora, no sol escaldante.
–“Vou bem alugar um prédio para comer um pão.” Disse o doidinho.

Com certeza, a preferência de meu padrinho recai na extrema arte do repente, onde dois oponentes que se dizem “companheiros” se digladiam num empolgante duelo de inteligência e extrema inspiração. É tão surpreendente esta arte que o repentista que está dizendo um verso, já tem o seguinte pronto na cabeça e já está pensando no terceiro, claro que podendo mudar tudo a uma leve provocação do oponente. Podemos apreciar esta velocidade de raciocínio em uma contenda, relatada por meu tio, entre o afamado Ivanildo Vilanova e um parceiro menos votado que lhe caiu no interior da Paraíba. Ivanildo formado em letras e grande promotor da profissão de repentista, inclusive no Congresso Nacional, sentindo-se superior ao oponente, que era um matuto quase analfabeto, lançou como mote a cidade de Paris, capital da França, onde estivera. Seu adversário não titubeou e:

“Falar sobre Paris é negócio de tolo,
Conheci um sítio Paris junto do sítio Criolo,
Onde um cabra mata o outro
Com uma banda de tijolo.”

Meu Tio tem algumas maneiras de resolver situações que lembram a tal arte que ele tanto venera. Em um dia, na década de 60 ele ia na lotação que o levaria de Olinda, onde morava, ao Bairro do Recife, onde trabalhava no Banco do Brasil. Nas cadeiras da frente sentaram-se uma Freira com uma menina na janela. A menina, subitamente deu uma cusparada para fora e, como o veículo vinha em velocidade, tudo o que fora ejetado foi parar no rosto do meu padrinho. Este não aguentou o incômodo e vendo que não podia continuar daquela forma, pediu parada e desceu já no centro do Recife. Calhou do veículo parar em frente a um boteco. Chegou para a moça que estava à frente do estabelecimento e pediu duas "caninhas". A moça estranhou o pedido, mas o serviu. Tio Izaldo pegou uma cana, jogou paulatinamente o seu conteúdo no rosto, esfregando para retirar toda a sujeira. Ao final do preocesso pegou a segunda "cana" e tomou de uma só vez, que ninguém é de ferro. A moça olhou tudo aquilo assustada e calada. Quando Tio Izaldo perguntou quanto era, ela respondeu: "Não é nada não, nunca vi ninguém lavar a cara com cachaça a esta hora da manhã!"

Quando apreciamos a arte de alguém, é comum contemplarmos tanto aquela forma de expressão que finalizamos por adota-la como uma grande companheira em nossa vida. Como lazer, ela pode passar a ser parte integrante de nossa mente. Podemos vivê-la a tal ponto que, de repente...

Em um almoço no restaurante “Kibe Cru” no bairro do Pina, zona sul do Recife, colado ao bairro afamado de Boa Viagem, estava meu Izaldo e sua turma de amigos do Banco do Brasil a saborear as delícias da culinária moura. Um dos presentes observou:

– Vocês já perceberam como os árabes adoram usar berinjela em sua comida? Só aqui, na nossa mesa, temos três pratos com ela.
Tio Izaldo não deixando escapar a oportunidade, entre uma garfada e outra soltou...
– Deve ser por isso que eles são tão berinjelantes*(sic)!

Nota:
*Belingerante – Aquele que faz guerra, ou está em guerra (Dicionário Aurélio)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Viagem à Munguengue

De Fernando Melo
Argumento de Charles Eduardo

Estava em uma das nefastas situações que podia acontecer Atrasado, dentro de um ônibus que estava no meio de um engarrafamento na Av. Recife, com passagem comprada para Caruaru e o expresso, tinha certeza, já estava na baia da Rodoviária, pronto para ir embora.. Diante das circunstâncias, resolvi relaxar e aproveitar a vista, pois a possibilidade daquela condução me esperar era mínima. Quando o ônibus entrou na BR-408, rodovia que dá acesso ao Terminal Rodoviário do Recife, visualizei a minha ex-condução indo para o seu destino sem dar bola para o atrasado que se avizinhava.
Ao chegar, fui tentar trocar a passagem no Box da empresa, mas o máximo que consegui foi um desconto numa daquelas sopas que pingam em cada ajuntamento de três casas na beira da estrada. Subi no veículo lotado. Havia uma poltrona no meio do carro meio que esquecida. Olhei para ela para ver se estava limpa, pois naquela posição seria difícil que estivesse permanecido vazia sem que houvesse algum problema. Como nada vi, guardei a minha bagagem no bagageiro superior e desabei na poltrona..Só aí que percebi meu companheiro do lado. Era um rapaz magro de barba por fazer, que, de maneira alguma, conseguia parar de matraquear com conhecidos que estavam à frente. Fiquei pensando como seria longa aquela viagem.
O problema é que logo começou a chover e não havia ar-condicionado. Todas as janelas foram fechadas e o calor ficou insuportável. Desta forma, naquela câmara fechada, a voz do meu companheiro ressoava bem mais alta e estridente. Assim que o despachado avistou o motorista que iria conduzir aquela bagunça lascou um:
– Mamulengo do cão... Motorista fei dos diabo. Se isto aparecesse na noite de malhar o Juda, entre meia-noite e uma hora da manhã, era um cacete tão grande que isso levava, que nunca mais ia voltá pra casa. Ah dublê de filme de terrô.
O pobre do motorista olhou para a risadagem que se seguiu, sem saber de onde partira a galhofa. Isto só fez aumentar a baderna. Como não podia mudar as feições e não havia nada a fazer para conter a desordem, virou-se para dar início a viagem.
Não pôde, não conseguiu passar a marcha-ré para sair da baia. A caixa de marcha havia ido para o espaço. O Motorista desceu, juntou com um assistente de mecânico e ficou enfiado na tampa do motor do ônibus, tentando fazer um arranjo na sardinha.
Meu amigo então, logo teceu seu comentário: -- Ih, rapaz, tão usando até pá e picareta.
Percebi onde havia me metido quando um dos amigos do agitador voltou-se em nossa direção e dirigiu-se a mim.
-- Boy, tais arrumado!. Tu acha que nós tamo aqui porquê. A cadeira dele é 12. E nós tamos na 5 e na 6 pra vê se dá pra viajá sem muita perturbação. Mas tu vai ter que agüentá a xaropada até o fim da viagem.
--Me deixe quêto, Venta de Suvela, retrucou e provocou o meu companheiro, como se não lhe houvesse uma força interior que o conduzia àquela esculhambação. Fiquei olhando o nariz do outro para ver se descobria o que viria a ser uma suvela.
Meu amigo então, começou se mal-dizendo da sorte por ter pego aquele ônibus, que tinha um compromisso em Toritama, pois era representante de vendas de uma fábrica de chinelo. Olhando para ele, tinha o tipo daqueles antigos caixeiros-viajantes, que com uma ótima conversa saia enrolando, digo, vendendo seus artigos.
--Ô da Capitar, a maré tá tão braba pro meu lado, que se eu montar uma fábrica de chupeta, os minino começa a nascer tudo sem boca só prá não chupar da minha mercadoria.
Eu preferia não dar muito cabimento à conversa, pois, com o passar do tempo estava achando que Venta de Suvela estava com toda a razão. Infelizmente, o meu companheiro não estava dando a mínima para a minha necessidade de tranqüilidade.
-- Pois é, o negócio tá tão feio que eu tô rifando a cova de meu avô lá no Cemitério de Riacho das Almas, tá interessado? E me mostrou um bloquinho que eu peguei, mas não acreditei quando li a confirmação da história. Perguntei quanto era e comprei a rifa somente para mostrar aos amigos. Depois, fiquei imaginando o que faria com aquilo se ganhasse.
Josimar (Este era o nome dele...) ficava o tempo todo de olho no trabalho da dupla, que lutava na traseira com o motor do ônibus, e, volta e meia disparava:
-- Minino, será que o ônibus num quebrô porque a máquina tá com medo da feiura do motorista. Isto num é nem motorista, é um encosto.
Para a nossa felicidade os nossos quebra-galhos resolveram o problema do veículo e Encosto, digo o motorista finalmente sentou no acento e ligou a fubica. Senti uma imensa pena do coitado, pois se notava que ele havia feito um grande esforço para salvar a nossa viagem. Estava todo molhado e olhava para trás todo desconfiado. Chegamos finalmente a BR-232 que nos conduziria nos próximos 105 km. Josimar estava mais calmo, mas não parava de mexer com o condutor.
--Este cabra não bate em bicho de jeito nenhum, pois de tão feio, os bicho disparam quando ele se aproxima.
A viagem não evoluía rapidamente e meu amigo se queixava.
-- Este danado tem uma perna só, por isso não corre mais.
Já estávamos com 40 minutos de viagem e nada de descanso. Josimar se vingava no relógio e falava pelos cotovelos, pelos dedos, pelas unhas... Eu, morrendo de sono, só suspirava e olhava para a risadagem de Venta de Suvela e do outro.
-- Ô da Capitar (Já virou meu nome....) Eu num te disse o que tu ia passar. A boca desse homem não tem cabresto, ele vai reclamar mais do que bode embarcado, vai falar até que tu durma no falatório. Falou Venta...
-- E vai falar até tu sonhar com ele falando. Disse o companheiro do outro.
-- Vocês vão tudo cagá no mato!!. Praguejou o Falador.
Virando-se para mim ele continuou: -- Ô da Capitar, deixa esses chumbrega pra lá, e escuta esta. Nós foi viajar pra Gaibú e no meio do caminho tinha um posto, onde nós paramos. Uma amiga minha me pediu pra arranjar papel higiênico, logo eu ... Quando eu cheguei no balcão falei bem alto:--‘Moço, pelo amor de Deus, me dê um rolo de papel, porque a menina se obrou nas calças e tá do início da perna até os carcanhá a disgracêra’. Quando eu fui entregar o rolo a ela, todos do posto vieram ver quem era. O resultado é que ela ficou um mês sem falar comigo. Apelidei ela de Caganeira... Ela adora....
Nesta altura, nem eu, nem ninguém no ônibus conseguia dormir. E o pior é que a maioria estava dando corda para o Tagarela que, percebendo o sucesso que estava fazendo, cada vez falava mais.
--Da Capitar, Tu sabe onde é Muguenge ?
--Onde é o que?
--Munguengue – M-U Mu, G-U-E-N Guen, G-U-E Gue, Muguengue.
--Não, não sei, não.
--É ali, entrando em Cachoeira do Rio dos Sapos e quebrando às direitas. Lá, tem uma veinha chamada Priquitinha, dona de uma barraquinha de confeito na frente dos Correios. Agora pense numa véia invocada. Tem só um metro e meio de altura, mas é braba que nem um siri na lata. Chegue lá com o dinheiro contado, porque ela num dá troco de jeito nenhum. Uma vez um amigo meu comprou um saquinho de nego-bom e deu dez reais. Ficou pelos R$ 10,00 e ainda levou tanto palavrão que saiu morrendo de vergonha.
Eu já não agüentava mais aquela falação, olhava para os lados, para frente, para trás para ver se havia um lugar vazio para onde eu pudesse me mudar. Não encontrei e continuei agüentando.
--A danada da véia tem um gato que ela amarrava em uma goiabeira. Não sei o que tinha naquela árvore que endoidou o gato ou gato amarrado endoida mesmo. Só sei que ele mordeu a raiz dela todinha. Depois de umas semanas a goiabeira, que só dava goiaba, começou a dar jaca, mamão, melancia e, de vez em quando, uma penca de banana. Ninguém entendeu nada e tá todo mundo correndo do gato.
Eu vi que o ônibus estava passando em Gravatá e tive vontade de descer. Almoçaria com minha avó que mora lá, e depois seguiria viagem em outro ônibus. Desisti da idéia quando me lembrei que estava com o dinheiro da viagem e estadia contados.
Os passageiros incentivavam Josimar com toda aquela algazarra, e ele agia como se não estivesse ouvindo, só se referindo a mim. Ocorre que cada vez falava mais alto para que toda aquela marinete ouvisse.
--Da Capitar, tu vai pra o São João de Caruaru? (Era época junina e estávamos na ante-véspera do dia de São João.)
--Vou mesmo trabalhar, mas acho que amanhã à noite devo me diverti na festa. Respondi.
--Nem vá meu amigo, que o São João de lá acaba é hoje.
--Porque? Perguntei.
--Porque a danada da minha sogra vai tá lá.
--Não entendi, retruquei.
-- Meu amiguinho, onde ela passa, ela acaba. Ela vai perturbar os sanfoneiros, vai mandar os bacamarteiros pararem de atirar, vai dar voto errado nas comidas das barraca, vai aperriar o Padre por que o barulho não tá deixando ela ouvir a missa, olhe que vai ser um inferno. Ano passado, não ouve São João em Inajá e eu sei que ela foi pra lá e acabou com a festa. Esse ano ela tá indo é pra Caruaru. E vai ficar lá em casa e Gó, coitada!! Gó (que deve ser a mulher dele) já toma conta do avô dela, que é uma pedreira. Só pra tu sabê, o avô dela esperou 3 dias de chuva com trovoadas e no quarto, que fez Sol, ele saiu pra catar tanajura. Do monte que pegou, comeu meio balde torrada na manteiga com farinha. Deu uma dor nele e o doutor disse pra que ele parasse com esse negócio de comer tanajura e comesse mais fruta. Nesse mesmo dia ele comeu 22 maçã. O resultado é que o véio se entupiu por três semanas. Gó levou o véio fastioso para o Hospital Regional do Agreste, onde ele tomou 5 lavagem, que não deram jeito. Mandaram ele pra casa e o véio tomou, por conta própria, óleo de peroba, soda cáustica e água com gás. No final da quarta semana, não agüentou nem sair da sala pra o banheiro. Despejou ali mesmo. Era mais de dois kilo. Os vizinhos não agüentaram e chamaram o carro fumacê que jogou um vapor de essências pra perfumar a rua. Agora tu imagina, esse véio com minha sogra junto. Coitada de Gó.
--Coitada mesmo, porque dos três o pior é tu. Gritou lá da frente Venta de Suvela.
O ônibus inteiro caiu na gargalhada e Josimar incrivelmente concordou.
Nesta conversa terminamos entrando em Caruaru e para minha surpresa a viagem que seria mais arrastada, devido a condução, acabou sem que eu percebesse a demora.
Quando desci do ônibus os três, não sei porque cargas d´água, cercaram-me e me levaram até a saída da Rodoviária me perguntando onde eu ficaria e qual o meu telefone.
Desconversei, pois aquela viagem já havia sido o bastante para mim.
Os trabalhos que me esperavam em Caruaru, terminaram se revelando de menor importância do que eu imaginava. Foram concluídos na manhã do dia seguinte e, como era festa, decidi aproveitar o restante da data lá onde a animação era geral.
Fomos, eu e mais três colegas de trabalho, para o Alto do Moura, aproveitar o clima junino, já que lá é um dos focos da animação.
Visitamos o Museu do Mestre Vitalino e sentimos a atmosfera da gente humilde que transforma a matéria prima, o barro, em obra-de-arte. Entramos nas casas da maioria dos artesãos de cerâmica, que é a especialidade do lugar. Em uma casinha que nada tinha haver com o comércio de artesanato, conheci as irmãs Marliete e Socorro, que fazem uma arte diferenciada de todos os outros artesãos. Suas pequenas peças (tamanhos entre 5 e 7 cm de altura) se distinguem por conseguirem retratar a expressão facial dos integrantes das situações que elas imaginaram. Vi uma pecinha que representava uma mulher batendo o pilão e juro que pensei ter visto aquela coisinha suar com o seu cansaço. Sua arte mostra as situações do universo feminino no agreste.
Na esquina da rua principal, visitei o antigo atelier do finado Antônio Galindo, que era escultor em cerâmica e poeta visionário. Seu universo se compunha de velhos de pés grandes, bruxos e bruxas com caras de animais, fadas e espécies de Gnomos. Para toda a peça que elaborava Galindo escrevia uma poesia sobre o que o havia inspirado quando da preparação daquela peça. A poesia era ofertada ao comprador, juntamente com a escultura adquirida.
O legado do Mestre Vitalino está sendo tocado por seu filho Elias que produz uma arte também extraordinária. Suas peças sem colorido, possuem em torno de 10 cm de altura e todos os elementos possuem a mesma face, o diferencial é que ele identifica as situações de sua gente no próprio dia-a-dia do agreste, retratado em peças como uma casa de farinha e seus componentes ou um vaqueiro conduzindo o boi. Vi na arte crua de Elias a herança cultural de meu povo.
Depois dessa maratona, paramos em um barzinho aberto, que já estava cheio. Demoramos para conseguir uma mesa, que estava bem imprensada em mais umas duas que já estavam ocupadas. Nos sentamos, fizemos sinal ao garçom pedindo uma cerveja e, antes de começar a conversar, senti nas minhas costas umas palmadinhas e ouvi aquela voz.
--Da Capitar, tu por aqui, ô eu por aqui também. Vem cá tomar uma cervejinha, e conhecer Gó, o avô dela e minha sogra.


OBS: Para quem possa interessar, suvela não é suvela e sim sovela e segundo o dicionário Michaelis é:
s. f. Instrumento com que os sapateiros furam o couro para o coser; furador.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O que uma Mulher quer ouvir?

Este é um daqueles textos que brotam já prontos e ficam fazendo esforço para sair logo. Você só descansa depois que termina de escrever.
O mote que o originou foi uma conversa que tive com uma amiga, onde eu lhe falava sobre uma resenha que havia lido de um filme argentino. O argumento era a intenção do protagonista de se vingar da derrota argentina na guerra das Malvinas. Para isto, ele teria que engravidar o maior número possível de Malvienenses. Com isto, as futuras gerações da ilha se tornariam descendentes de argentinos. Sendo assim ele conseguiria o que toda a armada Argentina não conseguiu, ocupar permanentemente as ilhas Falklands. Seria a vitória do “Amor” sobre a Guerra.
Ao ler isto, me impressionei com a prepotência do sujeito em achar que poderia realizar tal façanha. Para minha surpresa, quando contei, minha amiga não só tinha opinião diferente da minha, como achou “facílima” a tarefa. -- “É só ele dizer o que uma mulher quer ouvir” disse ela.
Simples assim...? Bastaria as mulheres ouvirem o que desejam, que se entregariam ao interlocutor... ? Não só uma nem duas, mas a população feminina de duas ilhas inteiras? Qual não foi o susto que eu ouvi isto dela, pois em toda a minha vida de pretenso conquistador, nunca pensei que houvesse uma chave que pudesse abrir tantas portas. O próprio roteirista argentino achando a tarefa hercúlea, colocou um freio nas pretensões do nosso petulante herói, fazendo com que ele só conseguisse chegar a seu intento com apenas uma das habitantes . E olhe que, a opinião que argentino tem sobre si é ele elevado a 14ª potência. Talvez então, ele como eu, não conhecesse essa fórmula que só poucos iluminados conhecem. Isto deve explicar performaces como as de Casanova e Dom Juan. Pelas levas de amores que tiveram, eles deveriam saber muito bem o tal segredo, que nós, pobres mortais, nem sonhamos o que seja.
Minhas conquistas foram sempre resultados de muita perseverança, paciência e, principalmente, paixão. Nada tão fácil assim, como ela disse. Por meu desconhecimento, acho então, que sempre caminhei pelo lado errado da coisa. Principalmente porque a paixão, na maioria dos casos, embobece e estupida. Ela coloca uma venda em nossos olhos, produz mais suco gástrico e provoca uma névoa na massa cinzenta, de sorte que não enxergamos, temos dor de barriga e por fim, emburrecemos. Por conseqüência, às vezes que consegui, devem ter sido resultado do favor da sorte ou pura conivência da minha eleita. Esta, por sua vez, deveria estar tão interessada quanto eu, já que teve de dar ouvidos a um lero-lero sem muita objetividade, coitada...!
Com minha curiosidade ao extremo, eu perguntei que chave universal seria esta? O que uma mulher realmente deseja ouvir? Fiquei triste com a forma que ela desconversou. Preferiu me deixar na ignorância mórbida dos enjeitados, no desconhecimento obscuro dos esquecidos, nas trevas inefáveis dos mal-amados.
Mas, logo percebi que eu não queria ouvir esta revelação. Não teria a menor graça. Sim, pois me dei conta que o mais excitante seria descobrir a chave deste mistério. Estava lançado o desafio. Então, levantei-me, assoprando a poeira e agradeci por ela ter se esquivado. Assim, como Vasco da Gama saí rumo ao desconhecido caminho da mente feminina à cata daquilo que poderia tocar-lhe de forma tão irrefutável.
Fui então procurar nas estantes das livrarias o que poderia me ajudar. Para meu espanto, o que existe de “Literatura” a respeito do assunto é de espantar. Desde o “117 maneiras de enlouquecer uma mulher na Cama” até o “Cartas românticas em 10 lições”. Para começar peguei o “117 maneiras ... “e verifiquei que não servia a meus intentos, haja visto o texto que se segue: –“Leve-a ao cinema, procure uma sessão que não tenha ninguém e vá para a última fila. Comece lhe acariciando as mãos, depois passe para as pernas e depois vá para os botões da blusa, em direção... “ Não vi muita novidade, já que eu e toda a população masculina, já tentamos realizar estas fantasias quando adolescente.
Me detive então, num calhamaço de 485 páginas intitulado “Como se dar bem com as mulheres” de David Copeland. Neste compêndio, o autor faz um passo a passo abrangendo desde a troca de olhares até a hora do “descarte”. Me dirigi, no livro, para a” Hora da conquista” e li com bastante atenção os mandamentos do mestre.
“Devemos mostrar como ela nos faz sentir bem” então, ele coloca as seguintes para nossa escolha:
– “Nunca me senti tão a vontade com uma mulher “;
– “Um calor percorre meu corpo quando estou com você”;
– “Não há palavras que descrevam o quanto você é especial em minha vida.”
O grande guru esclarece também, –“Você deve dizer como pensa nela.”:
--‘Não consigo parar de pensar em você’;
--‘Quando estamos juntos, esqueço o mundo.”
O nosso conquistador nos aconselha: “ Não seja vulgar. Por isto, elogios como:
--‘ Sua bunda ficou linda nesta calça’;
--‘ Sua bunda parece um coração’ (Desse eu gostei...); ou
--‘ Adorei sua blusa. Ela realça os seus seios’; devem ser evitados.”
Lendo isto, fechei o volume desconfiado que, por trás de seu extenso curriculum de Psicólogo, Mrs. Copeland é um tremendo picareta. Sendo assim abandonei os livros de “Auto-ajuda”.
Procurei na Internet e achei um site que estava cheio de declarações de amor(A página do amor). Encontrei coisas do tipo:
“A alegria de saber que você existe me dá forças para suportar a tristeza de sua ausência”;
“Tu és Lua, raio de sol, uma ternura, neste imenso mar, eu sou aquele que te quer e mais ninguém”;
“Amo-te, adoro-te, venero-te, respiro-te, como-te, oiço-te(sic), sinto-te e vejo as horas!(?)!!”
Princesa será sempre eu e tu, tu e eu, nós dois e nosso amor”;
Tenho apenas um desejo. Que teu corpo peça o calor do meu”.

Foi então que, me lembrei de Fernando Pessoa:

“Todas as cartas de amor são
ridículas.
Não seriam cartas de amor
Se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu
Tempo cartas de amor,
Como as outras
ridículas.
As cartas de amor,
Se há amor,
Tem de ser
ridículas.
Mas afinal,
Só as criaturas que nunca
Escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.”

Então, todos receberam o meu perdão.

Prosseguindo, fui ao encontro do que sempre me seduziu: a História.
Desta forma a busca ficou muito mais interessante, pois apesar de não servir para os dias de hoje, o objetivo das declarações era o mesmo: A conquista da amada. E com que classe.

"Tu és a única,
A bem amada,
A sem igual,
A mais bela do mundo,
Semelhante a brilhante estrela do ano novo
No limiar de um belo ano,
Aquela cuja a graça brilha,
Cuja pele irradia,
De olhar claro,
De lábios doces,
De longo pescoço,
De cabeleira lápis-lazúli,
De dedos semelhantes a cálices de lótus,
De quadris finos,
De andar nobre".
(Cântico de amor –Egito Antigo)
Até posso imaginar a atmosfera desta composição, uma noite calma
A luz das lamparinas, um instrumento antigo de corda, a amada no pensamento.
E a música saindo calmamente. Acho que
ela não oporia nenhuma resistência quando a ouvisse.
.

"És formosa como Tirsa,
Graciosa como Jerusalém
Temível como um exército em ordem de batalha,
Desvia de mim teus olhos,
Pois eles me fascinam.
Teus cabelos são como um rebanho de cabras
Descendo impetuosamente as encostas de Galaad,
Teus dentes são como um rebanho de ovelhas que sobem do banho
Como és bela e graciosa,
Ó meu amor, ó minhas delícias
Teu porte assemelha-se ao de uma palmeira,
De que teus seios são os cachos.
“Vou subir a palmeira, disse eu comigo mesmo,
e colherei os seus frutos”.
Sejam teus seios
como cachos da vinha,
E o perfume de tua boca,
Como o odor das maçãs;
Teus beijos são como um vinho delicioso,
Que corre para o bem-amado,
Umedecendo os lábios na hora do sono".
(Cântico dos cânticos – O Cântico mais belo de Salomão)
Apesar das comparações exóticas, coisas como cabras, ovelhas
palmeiras, exércitos representavam o que de mais valioso
existia na época. Com certeza você não esperava, este tom
picante em um livro da Bíblia.
Glória a Salomão!! O mais sábio dos reis ( e também o mais envolvente).


"Quem pudera julgar de vós Senhora,
Que com tal fé podia assim perder-vos,
E vir eu por amor a obedecer-vos?
Que ei de fazer sem vós somente uma hora?
Em mim (tu) viverá sempre inteira
E se para (te) perder já a vida é tarde,
A morte não fará que vós não irá".
(Luís Vaz de Camões)
Desespero completo. Na iminência da perda de seu amor
para alguém que não a merece, o Poeta apela até
para a sua destruição, tentando atingir o coração da amada
e sagazmente impultando-lhe a culpa.

"Meu amor não vê com os olhos,
Vê com a mente;
Por isso é alado,
É cego e tão potente "
(William Shakespeare)
Em minhas qualidades, são retratadas
As tuas.

Perdendo um pouco a erudição, fui pedir auxílio ao nosso cancioneiro popular que, possui inúmeros galanteadores. Cada um com suas preferências e estilo.

"Traga-me um copo d´água tenho sede
E esta sede pode me matar
Meu coração só pede o teu amor,
Se não me deres, posso até morrer... "(Quinteto Violado)
Árida, carente e suplicante. Com sabor de Nordeste.

"O meu verso dá pulo e cambalhota
Quando te vê,
Porque você,
É meu único e definitivo Poema".
(Alceu Valença)
Altamente criativa,, acrobática e festiva. É das melhores.

"Nem o Sol, nem o Mar,
Nem o brilho das estrelas,
Tudo isso não tem valor
Sem ter você"
(Beto Guedes)
Quem não quer evitar aquela manhã que, ao acordar, nada
faz sentido? O sol está frio, o mar não faz barulho e à noite
as estrelas apagaram. Porque não dizer-lhe então?
Esta é das mais românticas.


"Teus sinais me confundem da cabeça aos pés,
Mas por dentro eu te devoro
Teu olhar não me diz exato quem tu és,
Mesmo assim eu te devoro.
É um milagre tudo o que Deus criou pensando em você... "
(Djavan)
O charme está na perturbação assumida e no toque de malícia. Aprendi
mais uma. Uma não, duas. A frase final é extraordinária.



"Se me faltares, nem por isso eu morro,
Se é para morrer, quero morrer contigo
Minha solidão se sente acompanhada
Por isso ‘as vezes sei que necessito
Teu colo... "
(Chico Buarque)
Tempos difíceis, quando a morte era sempre
associada ao amor e a presença deste era
a vida.


"Eu vou te procurar, na luz de cada olhar mais diferente
Tua chama me ilumina,
Me faz virar um astro incandescente,
Teu amor me faz cometer loucuras,
Faz mais, faz desacreditar de tudo... "
(Geraldo Azevedo)
Esta fala sobre transformação que acontece em nós
quando somos correspondidos. Viramos astros, estrelas, cometas.
Reviramos nossos conceitos.
Mas para mim, esta tem um significado especial.
Associada a música, lembra uma triste despedida.

"Não quero sugar todo o seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer
Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceites
O meu estranho amor".
(Caetano Veloso)
Vemos que o amor se manifesta das mais diversas formas.
E permite coisas que, para muitos, pode ser até sentença de
Morte.


"Quero a sua alegria escandalosa
Vitoriosa por não ter
Vergonha de aprender como se goza
Quero toda a sua boca castidade
Quero toda a sua louca liberdade
Quero toda esta vontade de passar os
Seus limites , E ir além...".
(Ivan Lins)
A admiração é um dos requisitos da paixão e, por
conseqüência, reconhece-la também o é.

"Comunico oficialmente
que há um lugar em minha mesa
Pode ser que você venha por mero favor,
Ou venha coberta de amor,
Seja lá como for venha sorrindo.
Benvinda... "
(Chico Buarque)
Com esta elegância é difícil que ela
não venha
.

Agora falemos de mestres, mestres das palavras, mestres das fantasias, mestres dos encantamentos e mestres dos sentimentos. Mestres da folha de papel, das anotações no carro, no ônibus, no chuveiro. Mestres de olhos de cometa, mestres da captação, da compreensão e mestres da expressão. Mestres das conquistas e, acima de tudo, mestres do amor.

"Não acharás, amor.
no poço que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que este abismo".
(O poço – Pablo Neruda)
Este verso resume toda a poesia de “O Poço”.
É um convite ao soerguimento.-- Venho a ti para te
tirar da angustia, da tristeza, para que te levantes
e caminhes comigo
.

"Morto, hei de estar a teu lado,
Sem sentir, nem saber...
Mesmo assim isto me basta
P´ra ver um bem em morrer".
(Fernando Pessoa)
Esta é linda, .
Impressiona pela carga de sentimento
Que nela contém. A timidez de chegar
ao ser amado. A opção pela morte, mas
que seja junto a ela.
Ninguém fica indiferente
.

"Eu agora que desfecho
Já nem penso mais em ti
Mas será que nunca deixo
de lembrar que te esqueci?"
(Mario Quintana)
O amor aparvalha.

"Estou te amando e não percebo,
Porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
Mas te amando tanto
Que nem a mim mesmo
Revelo este segredo".
(Afonso Romano de Santana)
Medo de amar, medo de ir além,
Medo de se entregar.
Atitude tipicamente masculina,
Que encobre, não acredita, dissimula,
Mas se apaixona com um só olhar.

"Mas que a dois filmes entã"o,
Carrego tuas imagens:
Mais que a nos rios, depois,
Mais que todas as viagens".
(João Cabral de Melo Neto)
Necessidade de ver sempre.
Fotos marcantes que são carregadas
de lado a lado.

"Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo,
Eu te amo porque te amo,
Amor é estado de graça
e com amor não se paga".
(Carlos Drummond de Andrade)
Amor sem razão, platônico e sofrido. Amor

"Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude".
(Vinícius de Moraes)
Amém Vinícius!!
Neste verso estão encravados todos os sentimentos
e desejos de quando se ama.

Esta lista poderia completar resmas de papel. Por isto decidi encerrar com o “Soneto do Amor Total” de Vinícius, pois melhor forma não caberia.
Antes de me despedir, atrevo-me a pecar contra todos os grandes acima e coloco para você a minha humilde contribuição. Vem de uma passagem de algo que escrevo que pretende ser um “livro”. Foi inspirado em uma musa real, mas nunca foi entregue.


Carta a Ivone.

Ivone,

Desde o dia que te conheci, algo me incomoda. Nunca soube realmente o que era até a dois anos atrás, quando, pelo teu afastamento, soube que te perdia. Embora continuaste a me tratar, aparentemente do mesmo modo, pelo meu desleixo, eu te perdia. Te perdia porque encontraste o teu caminho e me deixaste a procura do meu. E isto aconteceu quando eu já julgava que estarias ali sempre, procurando comigo. Fui egoísta, desleixado e idiota por pensar assim. Fui fraco por não me encontrar quando deveria e por nunca tomar nenhuma atitude que te trouxesse para mim.
Agora que estamos com nossas vidas traçadas e, não tendo muito o que fazer, decido tomar outra atitude covarde e declaro o mais ignóbil, imbecil e revoltante amor que um homem pode dar a uma mulher. Logo a você Ivone, que sempre foi minha companheira nestes anos e que eu deveria te apoiar e a quem eu deveria desejar toda a felicidade do mundo. É o que você merece. Mas um abjeto como eu vem e te declara que, hoje entende que te ama irrefutavelmente e nada pode fazer para dissipar o que sente. Nada, nada, nada...
Por isso, mais uma vez procurei a saída dos execráveis. Vou sair de tua vista, Ivone, pois não quero atrapalhar o teu noivado. Mas entenda, só da vista, pois nunca conseguirei sair de perto de ti. Como não te ver todo dia? como não sentir tua presença? Como não ouvir a tua voz? Como não sentir teu cheiro? Por fim, como não te beijar, que é algo que, daqui pra frente, não vou poder viver sem deixar de fazer?
Da forma como vou fazer isso, você não vai entender, nem vai acreditar, mas vai ter que ajudar. E é por isto que te deixo este presente. Sim, um simples vidro de perfume. Você vai gostar. É cheiroso, sinta-o! Apenas você deve saber que este perfume é diferente. Não se preocupe que nada irá lhe acontecer. Ele é especial, simplesmente porque sou eu. É sim, eu estou neste líquido, nesta fragrância e assim que me colocares, me espalharei por sobre tua pele. Sem que percebas, estarei em um contato tão intimo contigo que ninguém até hoje conseguiu com ser humano nenhum.
Se isto tem haver com bruxaria? Bem, conheci um Sábio que detinha o poder da transmutação. Aprendi com ele alguns segredos e este perfume.
Mas isso não importa. De agora em diante, o que vai me interessar será aguardar dentro do vidro, a oportunidade te agradar o olfato, te beijar o pescoço, te envolver o colo, te afagar os seios. Passear por lugares que sempre desejei e só hoje tive coragem de declarar.
Assim, não terei ciúmes, pois ninguém terá tido um contato tão íntimo quanto eu. E quanto mais sentires o meu aroma, mais estarei a te acarinhar e a te beijar, de forma que nada poderá permanecer entre mim e ti.
Quanto a você, sentirás apenas o meu perfume e nada mais, castigo merecido para mim, que fui tão estúpido, comodista e egocêntrico.
Porém existe uma falha em meus intentos. E é onde tu tens o poder de me dares ou não direito a este sortilégio. Para que o meu feitiço funcione como deve ser, será necessário um auxílio de tua parte. Simplesmente que ao abrires o frasco e passares a fragrância, pensares em mim. Só assim conseguirei.

Com amor,
Antônio
E de agora por diante
O teu Perfume.

Bem leitora, você acha que tudo o que está nestas linhas poderia conseguir o tal intento? Depois de tudo, eu ainda não sei. É triste, depois de tanto entusiasmo, chegar a conclusão de que ainda estou na dúvida. Será que você não poderia me ajudar? Responda-me: O que uma mulher quer ouvir na hora da conquista? É uma bobagem, mas a negativa de minha amiga em me responder, me pareceu um atestado de velhice, como se nada mais pudesse me acontecer, ou teve o efeito de um cadeado. que me aprisiona e tem o mesmo efeito. Então me foi lançado o desafio. Mas, depois de tudo, e após tanto entusiasmo, não consegui desvendar este segredo. Creio que, com essa bagagem,talvez o nosso grande homem conseguisse conquistar cinco, dez, quem sabe todas as Malvieneses. Só não conquistaria aquela a quem deveria. Sim, pois ela seria a mais difícil, a mais inalcançável, aquela que estaria acima de sua voz. Ou seja, aquela por quem ele estivesse miseravelmente apaixonado.